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O FRETE VIROU COMMODITY — O CUSTO, NÃO

Como a expansão da oferta de caminhões, a pressão comercial e a escalada dos custos comprimiram a rentabilidade do transporte rodoviário brasileiro

Por Carsten Editorial · Sep 2026


Entre 2016 e 2026, caminhões, pneus, diesel e alimentação subiram muito acima da capacidade de recomposição estrutural do frete. O setor movimentou mais capital e assumiu mais risco, sem necessariamente capturar mais retorno. Quanto maior a oferta de caminhões para uma mesma quantidade de cargas, menor tende a ser o poder de precificação do transportador. O frete cai ou fica estagnado, mas o ativo, o combustível, os pneus, a folha e o capital continuam sendo reajustados.

 

SOBRE O AUTOR

Rennan Carsten Laurentino: CEO da Carsten Serviços e Transportes, empresa atuante desde 2012 no setor de transporte, armazenagem e logística integrada em diferentes regiões do Brasil. Representante da quarta geração de uma família ligada ao transporte, iniciou sua trajetória profissional no setor como aprendiz aos 12 anos. É administrador de empresas, especialista em Logística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), possui MBA pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e formação executiva pela Fundação Dom Cabral. Atualmente, lidera o processo de crescimento e profissionalização da Carsten, com foco em estratégia, governança, eficiência operacional, crescimento sustentável e geração de valor.

O transporte rodoviário de cargas vive uma contradição. O frete é negociado como commodity, pressionado pela oferta de veículos e pela competição por volume. Ao mesmo tempo, a estrutura necessária para entregar esse serviço ficou muito mais cara, complexa e intensiva em capital.

Entre 2016 e 2026, o preço de referência de um cavalo mecânico extrapesado aumentou aproximadamente 213%. Pneus premium e diesel mais que dobraram. A cesta básica de São Paulo subiu cerca de 120%, e o salário mínimo avançou 84%. Em paralelo, a Selic, que chegou a 2% ao ano em 2020, estava em 14,25% em junho de 2026.

A elevação dos custos, porém, não se converte automaticamente em reajuste de frete. Quando a quantidade de caminhões disponíveis cresce mais rapidamente que a demanda por transporte, aumenta a disputa pela carga. O embarcador ganha poder de negociação, o preço é pressionado e a rentabilidade do transportador diminui.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o frete não acompanhou integralmente a evolução dos custos. O problema não é apenas inflação. É uma falha estrutural de precificação em um mercado fragmentado, de baixa diferenciação percebida e com excesso recorrente de capacidade.

“O paradoxo é cruel: rodar pode consumir patrimônio, e ficar parado também custa dinheiro.”

 

QUANDO O FRETE SE TRANSFORMA EM COMMODITY

Commodity é aquilo que o mercado percebe como facilmente substituível. No transporte, isso acontece quando a contratação se resume a encontrar um caminhão disponível para retirar uma carga na origem e entregá-la no destino.

Se os transportadores são tratados como equivalentes, a comparação deixa de considerar segurança, governança, disponibilidade, tecnologia, gestão de risco, integridade, nível de serviço e capacidade financeira. Sobra uma variável dominante: preço.

Nesse ambiente, cada caminhão adicional disputando a mesma carga aumenta a pressão competitiva. Uma empresa pode reduzir o preço para ocupar o ativo, gerar caixa ou evitar o custo da ociosidade. Outra acompanha a redução para não perder o volume. O preço praticado se distancia do custo econômico, e o mercado entra em uma corrida que parece racional no curto prazo, mas destrói a capacidade de reinvestimento no longo prazo.

O TRANSPORTE TENDE A SER COMMODITY. A GESTÃO NUNCA SERÁ!

É a gestão que separa o preço nominal do resultado real. Duas empresas podem faturar o mesmo frete e produzir margens completamente diferentes, dependendo de produtividade, ocupação, consumo, manutenção, sinistralidade, estrutura financeira e qualidade da decisão comercial.

 

Tabela 1 — O equilíbrio que define se o frete sobe, estabiliza ou cai (Fonte: Elaborado pelo autor)

CONDIÇÃO DE MERCADO

EFEITO COMERCIAL

CONSEQUÊNCIA ECONÔMICA

Mais cargas do que caminhões.

O transportador ganha poder de negociação.

Frete e rentabilidade tendem a subir.

Equilíbrio entre carga e capacidade.

A competição ocorre por eficiência e serviço.

Margens tendem a se estabilizar.

Mais caminhões do que cargas.

O embarcador ganha poder de negociação.

Frete e rentabilidade tendem a cair.

 

Tabela 2 — Evolução dos principais custos do transporte rodoviário entre 2016 e 2026 (Fonte: Elaborado pelo autor)

ANO

CAVALO MECÂNICO

DIESEL/L

PNEU PREMIUM

SALÁRIO MÍNIMO

SELIC

CESTA SP

2016

R$ 380 mil

R$ 3,00

R$ 1.500

R$ 880

13,75%

R$ 439

2017

R$ 400 mil

R$ 3,20

R$ 1.550

R$ 937

7,00%

R$ 424

2018

R$ 440 mil

R$ 3,45

R$ 1.600

R$ 954

6,50%

R$ 471

2019

R$ 500 mil

R$ 3,75

R$ 1.700

R$ 998

4,50%

R$ 506,50

2020

R$ 550 mil

R$ 3,65

R$ 1.900

R$ 1.045

2,00%

R$ 631,46

2021

R$ 700 mil

R$ 5,33

R$ 2.500

R$ 1.100

9,25%

R$ 690,51

2022

R$ 850 mil

R$ 6,36

R$ 3.200

R$ 1.212

13,75%

R$ 791,29

2023

R$ 950 mil

R$ 6,06

R$ 3.000

R$ 1.320

11,75%

~R$ 770

2024

R$ 1 milhão

R$ 6,11

R$ 3.100

R$ 1.412

12,25%

~R$ 841

2025

R$ 1,1 milhão

R$ 6,15

R$ 3.250

R$ 1.518

15,00%

~R$ 846

2026¹

R$ 1,19 milhão

R$ 6,50 a 7,00

R$ 3.400

R$ 1.621

14,25%

R$ 965,47

¹Em 2026, foram utilizados os dados mais recentes disponíveis até julho. Valores arredondados. Caminhão: referência de extrapesado premium, como Volvo FH 540 6x4. Pneu: referência premium 295/80 R22.5.

Tabela 3 — O que a variação de dez anos revela sobre a pressão de custos no setor (Fonte: Elaborado pelo autor)

INDICADOR

VARIAÇÃO 2016-2026

LEITURA

Cavalo mecânico

+213%

O ativo passou a exigir o triplo do capital nominal de 2016.

Pneu premium

+127%

O custo unitário mais que dobrou, com efeito direto sobre manutenção e disponibilidade.

Diesel

+125%

O principal custo variável mais que dobrou no período.

Cesta básica SP

+120%

A pressão sobre o custo de vida influencia salários e retenção de pessoas.

Salário mínimo

+84%

A folha avançou, ainda que menos que alguns insumos críticos.


O MECANISMO ECONÔMICO DA COMPRESSÃO

A formação do frete não depende apenas dos custos. Ela resulta do encontro entre oferta de capacidade e demanda por transporte.

O excesso de oferta pode ser nacional, regional, sazonal ou específico de determinado equipamento. Ele também pode surgir quando o crédito estimula a entrada de novos veículos, quando empresas expandem frotas acima da demanda, quando há queda de produção industrial ou quando muitos transportadores concentram capacidade nos mesmos corredores.

A ociosidade é cara. Por isso, o transportador frequentemente aceita um frete com margem inferior para manter o veículo em movimento. A decisão resolve o caixa imediato, mas reforça a referência de preço baixo para todo o mercado. O paradoxo é cruel: rodar pode consumir patrimônio, e ficar parado também custa dinheiro.

DEZ ANOS DE ESCALADA DOS CUSTOS

A tabela apresenta referências nominais para os principais componentes econômicos do transporte. Salário mínimo, Selic, diesel e cesta básica utilizam fontes oficiais ou institucionais. Caminhão e pneu são referências estimadas de mercado, pois não existe uma série pública única com a mesma configuração e política comercial durante todo o período.

A fotografia revela um setor que passou a exigir mais capital para gerar a mesma unidade física de serviço: deslocar uma carga entre dois pontos. O caminhão não transporta o triplo apenas porque ficou três vezes mais caro. O aumento do preço do ativo precisa ser absorvido pela produtividade, pela eficiência financeira, pelo prazo de utilização ou pelo frete.

Quando o mercado não aceita a recomposição integral, a diferença aparece em forma de menor margem, frota envelhecida, manutenção postergada, endividamento ou saída de operadores. A conta não desaparece. Ela muda de lugar.

POR QUE O FRETE NÃO ACOMPANHOU OS CUSTOS?

Existem cinco razões principais para o descompasso:

1. Excesso de capacidade: Mais caminhões disputando a mesma quantidade de cargas reduzem o poder de negociação do transportador.

2. Fragmentação do setor: Milhares de operadores tomam decisões individualmente e, muitas vezes, aceitam preços sem conhecer o custo completo da operação.

3. Ociosidade e pressão de caixa: O custo fixo continua existindo com o caminhão parado, o que leva empresas a aceitar margens insuficientes para gerar caixa imediato.

4. Baixa diferenciação percebida: Quando segurança, governança, disponibilidade e nível de serviço não são valorizados, a concorrência se concentra no menor preço.

5. Reajustes incompletos e tardios: Contratos podem reconhecer diesel ou inflação, mas deixar de capturar integralmente depreciação, juros, pneus, manutenção, seguros e salários.

FRETE PRATICADO NÃO É SINÔNIMO DE FRETE SUSTENTÁVEL

O preço praticado mostra quanto o mercado aceitou pagar em determinado momento. Não demonstra, sozinho, que a operação foi economicamente sustentável.

CONSEQUÊNCIA
O mercado consegue manter o caminhão rodando sem garantir que o capital investido esteja sendo remunerado. Volume não corrige preço ruim. Em muitos casos, apenas acelera a destruição de valor.

 

A Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas foi criada em 2018 com o objetivo de impedir contratações abaixo dos custos mínimos. A própria necessidade de um piso confirma que o mercado pode formar preços inferiores ao custo operacional.

Em março de 2026, a ANTT considerou o diesel S10 a R$ 6,89 por litro, alta de 13,32% sobre a referência anterior. Os pisos foram reajustados, em média, entre 4,82% e 7%, conforme o tipo de operação. O dado mostra que até um reajuste regulatório provocado pelo diesel se distribui por uma estrutura mais ampla de custos.

Indicadores recentes ajudam a observar o mercado, mas não formam uma série homogênea desde 2016. Em março de 2026, o Índice de Frete Rodoviário da Edenred Repom indicou média nacional de R$ 7,99 por quilômetro. Em abril, o Índice Frete.com apontou R$ 0,431 por tonelada/quilômetro, com avanço de 16,8% em doze meses. As métricas têm bases distintas e não devem ser comparadas diretamente.

“A pergunta correta não é apenas quanto o frete subiu. É quanto sobrou depois de remunerar operação, risco, capital e reposição do ativo.”

 

O NOVO CRITÉRIO DE COMPETITIVIDADE

Não há espaço para defender preços ineficientes. O transporte precisa continuar buscando produtividade, escala, ocupação, consumo, disponibilidade e redução de desperdícios. Competitividade real nasce da eficiência, não da omissão de custos.

O embarcador também precisa distinguir preço baixo de custo total baixo. Um frete aparentemente mais barato pode gerar indisponibilidade, ruptura, atraso, sinistro, perda de venda, estoque adicional e fragilidade financeira na cadeia. Quando o transportador não consegue reinvestir, o risco volta para o contratante na forma de menor capacidade e pior serviço.

O setor precisa evoluir em quatro frentes, conforme a Tabela 4.

Tabela 4 — As quatro frentes para transformar custo em competitividade real (Fonte: Elaborado pelo autor)

FRENTE

DIRECIONAMENTO

Precificação por operação

Conhecer o custo por rota, veículo, cliente, perfil de carga e nível de serviço.

Disciplina comercial

Recusar volumes que ocupam capacidade sem remunerar custo, risco e capital.

Diferenciação mensurável

Transformar segurança, disponibilidade, tecnologia e governança em indicadores percebidos pelo cliente.

Contratos inteligentes

Criar mecanismos de reajuste que contemplem diesel, salários, pneus, manutenção, juros e reposição dos ativos.

 

O QUE ESTÁ ENTRE TRANSPORTAR E CONSTRUIR VALOR

O transporte rodoviário brasileiro passou a exigir mais capital, mais controle e mais capacidade de gestão. Entretanto, a abundância de caminhões, a fragmentação do mercado e a baixa diferenciação percebida impediram que o frete acompanhasse integralmente a escalada dos custos.

Quanto maior a oferta de capacidade para uma mesma demanda, maior a pressão sobre o preço e menor tende a ser a rentabilidade. Esse mecanismo é natural em qualquer mercado de commodity. O problema começa quando o preço deixa de remunerar a estrutura necessária para manter o serviço disponível, seguro e sustentável.

“Frete que paga a viagem, mas não remunera o capital e não repõe o ativo é forma silenciosa de consumir patrimônio.”

 

Frete que paga a viagem, mas não remunera o capital e não repõe o ativo, não é competitivo. É apenas uma forma silenciosa de consumir patrimônio.

A saída não está em tentar eliminar a competição. Está em elevar a qualidade da gestão, medir corretamente o custo, diferenciar o serviço e estabelecer relações comerciais capazes de sustentar eficiência para os dois lados.

O transporte tende a ser commodity. A gestão nunca será. É ela que separa empresas que apenas movimentam cargas daquelas que constroem valor e permanecem relevantes ao longo dos ciclos.

METODOLOGIA E FONTES

Este artigo combina dados oficiais, referências institucionais e estimativas de mercado. Os valores são nominais e não foram corrigidos pela inflação. O objetivo é demonstrar a direção e a magnitude das mudanças econômicas, não estabelecer uma tabela comercial de frete.

Salário mínimo, Selic, diesel e cesta básica utilizam fontes oficiais ou institucionais. Caminhão e pneu são referências estimadas de mercado, pois não existe uma série pública única com a mesma configuração e política comercial durante todo o período.

O mesmo vale para o frete: não há série pública metodologicamente homogênea para o preço médio do transporte rodoviário brasileiro entre 2016 e 2026. O preço varia por região, distância, tipo de carga, carroceria, número de eixos, retorno, sazonalidade e nível de serviço. Por esse motivo, o estudo não estabelece um valor nacional anual para todo o período.

As séries de cavalo mecânico e pneu são estimativas de referência construídas a partir de preços observados no mercado para equipamentos premium comparáveis. O preço efetivo varia por marca, versão, configuração, impostos, pacote de manutenção, prazo e volume negociado. Esses valores não devem ser apresentados como uma série oficial.

REFERÊNCIAS

AGÊNCIA NACIONAL DE TRANSPORTES TERRESTRES (ANTT). Atualização dos pisos mínimos em razão da variação do diesel S10. mar. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/antt/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/antt-atualiza-tabela-dos-pisos-minimos-de-frete-em-decorrencia-da-variacao-no-preco-do-diesel-s10

AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO (ANP). Série histórica do levantamento de preços de combustíveis. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/precos-e-defesa-da-concorrencia/precos/precos-revenda-e-de-distribuicao-combustiveis/serie-historica-do-levantamento-de-precos

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Histórico das taxas básicas de juros fixadas pelo Copom. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/historicotaxasjuros

BRASIL. Lei nº 13.703/2018: Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/L13703.htm

DIEESE. Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos. Disponível em: https://www.dieese.org.br/cestabasica/

EDENRED REPOM. Índice de Frete Rodoviário. mar. 2026. Disponível em: https://mundologistica.com.br/noticias/frete-km-rodado-sobe-marco-chega-7-99

FRETE.COM. Índice Frete.com de Preços. abr. 2026. Disponível em: https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/logistica/420882-frete-rodoviario-sobe-6-93-em-abril-e-acumula-alta-de-16-8-em-12-meses-aponta-indice-do-frete-com.html